Sopa de Letrinhas, ou Uma Comédia de Erros.
○●○● Conto Não Publicado ○●○●
“Tudo que faz o seu sangue correr provavelmente vale a pena ser feito.”
— Hunter S. Thompson.
Prólogo.
— Cara, o que está acontecendo com a minha vida? Primeiro, meu carro quebra. Levo ao mecânico e o canalha me diz que só vai poder me entregar na semana que vem. Não posso esperar tanto, hoje tenho um show para ir com minha gata. Não é só um show, é 'o show da minha vida'. Pela primeira vez, vou ver de frente, ao vivo e a cores, os irmãos “Robinson” e o “The Black Crowes”, na turnê do disco “Amorica”. Desculpe pelo palavreado, mas esse show vai ser incrível, pau dentro a noite toda. Agora só faltam os meus ingressos que eu esqueci no carro…
Capítulo 01.
Frank Armitage, dono de uma pequena loja de
discos, está à beira da falência, mas ele não abre mão de vender discos de
vinil em vez de CDs. Ele não é fã de coisas digitais. Para evitar o fechamento
definitivo da loja, ele começou a vender café. Hoje em dia, as pessoas
frequentam a loja para tomar café, e não para comprar discos. Na vitrola, o
velho disco de vinil e seus sulcos arranhados giravam, rodando sem parar; um
verdadeiro milagre a agulha não pular devido ao precário estado do disco. Mas a
música ainda sai dali, e bem alto elas ecoavam nas caixas de som da loja.
Frank, sentado em um sofá, lia a recente edição de “Sandman”, maravilhado com a
história do escritor que “possuía” uma musa grega para lhe trazer criatividade.
Nem notou que o lado “A” do vinil havia terminado. Era um disco do "Lynyrd
Skynyrd", aquele ao vivo de 87, tributo à formação original. Antes que me
esqueça de narrar aqui, tocar rock na loja era obrigatório, às vezes uns pops
como Madonna, “Like a Virgin” era muito rock n’ roll. Para Frank, a atitude
rock também contava. Agora voltando ao leitor desatento. Um dos clientes que
tomava um café e folheava uma revista Rolling Stone. Chama a atenção, sobre o
disco ali rodando e não tocando nada. A mulher diz, “Cara, não vai trocar o
lado não?” O dono da loja apenas diz: “Lado do quê?” “Dessa merda de disco ao
vivo dos texanos lá…” “Eles são da Flórida.” Responde. Ele se levanta e desliga
a vitrola. Já tinha poucos clientes, não perderia mais um por questionar o
péssimo gosto musical daquela jovem senhora.
— O que deseja escutar? — Frank pergunta
cordialmente à cliente.
— Algo do "Duran Duran".
— "Duran Duran"? Isso aqui é uma loja de rock, na
placa está escrito “Red Rock West” e não “Red New Wave West”. Não pode ser algo
da “Madonna” não?
— “Like a Player” pode ser…
— “Like a Player” não. “Like a Virgin”.
Essa música é muito rock n’ roll, pelo menos em atitude é.
— Está bem, coloca o que você quiser, só o
maldito “Lynyrd Skynyrd” de novo não!
Ele pensa sobre como ela realmente tinha um
péssimo gosto para músicas. E talvez esse seja o motivo dele não ter muitos
clientes, já que julgava os gostos alheios sempre. Deveria vender hambúrgueres
e não discos ou café, ele reflete. Horas depois, um grupo de adolescentes
adentra a loja, buscando discos do Nirvana. Apenas “Bleach” estava disponível.
“Nevermind” havia esgotado, e ele não tinha dinheiro para pedir novas cópias
aos distribuidores. Eles saem sem comprar nada, a moça do café vai embora, ele coloca
na vitrola para rodar novamente seu álbum do “Lynyrd Skynyrd”. Por horas,
ninguém mais entra na loja, então decide fechá-la mais cedo.
Capítulo 02.
“Keep on rockin’ in the free world”, a voz
esganiçada e estridente do rabugento roqueiro canadense, pulsava nos pequenos
alto-falantes do carro de Frank. Ele havia fechado a loja mais cedo e ia em
direção à casa de sua namorada, só que imprevistos acontecem. O carro, seu
“Impala 67”, estava há dias, talvez semanas, falhando um pouco, mas desta vez
parou de vez. Gasolina adulterada? Era hora de revisar o motor? Não sabia, só
tinha certeza de que aquele não era um bom momento para o carro estragar. Ele
teve que empurrar o carro até a oficina mais próxima, e no céu avistava-se um
temporal se aproximando. Logo hoje, todo esse infortúnio, ele pensou. E se
tinha algo mais que pudesse piorar, piorou.
— Cara, seu carro não anda nada bem, tem
como fazê-lo andar de novo, mas vai demorar. As peças são complicadas de achar
hoje em dia, sabe, você está com sorte, meu primo tem uma loja de peças, e ele
tem muitas deste modelo. Só que ele está preso, está para sair já. Mas até eu
pegar as peças e fazer a troca vai levar de uma semana no mínimo.
— Eu preciso desse carro para, no máximo,
daqui a algumas horas!
— Pera aí, aqui somos profissionais, não
idiotas. Para algumas horas, nem se a fábrica da “Chevrolet” ficasse aqui do
lado, conseguiríamos peças para um “Impala 67” hoje ou amanhã, ou daqui a
algumas horas.
— E o que eu faço agora?
— Espera, porra!
Capítulo 03.
“Até as seis horas da tarde, o futuro é
incerto. Muita coisa pode acontecer, como o mundo acabar após um ataque
nuclear. Mas uma coisa é certa: até as seis horas da tarde, vai parar de
chover.” Frank falou consigo mesmo, porém a chuva não parava de jeito nenhum. E
a casa de sua namorada estava longe, sem dinheiro para pagar um táxi, já que
havia deixado uma boa quantia com o mecânico. Ele esperou um ônibus, “E cadê a
porra do ônibus?” Esperou muito, até que ele apareceu. Estava vazio, além dele
e do simpático motorista, havia um homem ao fundo. Frank se sentou na janela e
durante a viagem viu a chuva cair. Até que o estranho homem se levantou e
anunciou um assalto.
Capítulo 04.
— Isso é um assalto, mas não pare o ônibus,
se parar, todos aqui morrem. — O homem retira da cintura de sua calça um
revólver.
— Não me mate, eu sou pai de família,
honesto e trabalhador. — Diz o motorista em prantos. Frank nem diz nada, já que
não tinha muito o que perder, dinheiro ele não tinha.
— E você, cara, passa a grana!
— Eu não tenho dinheiro algum.
— Me dá esse relógio aí, então.
— Não, o relógio não posso te dar, eu
ganhei de minha mãe, e é a única lembrança que tenho dela.
— Ela já morreu? — Pergunta o assaltante.
— Já, sim, câncer no cérebro.
— Que pena, você vai se encontrar com ela
logo, se não me der o relógio.
— Não vou te dar o relógio da minha mãe.
Os dois entram em uma briga, a arma
dispara, acertando a mão do assaltante. Frank pega a arma e dá uma forte
cacetada na cabeça do bandido, que desmaia.
Capítulo 05.
Ele já havia tido muitos problemas com a
polícia, então preferiu não esperar. Colocou a arma do assaltante em um de seus
bolsos e foi embora andando, o motorista o agradeceu e deixou-o ir. Ainda
chovia muito, estava ensopado, mas conseguiu chegar até a casa de sua namorada.
Ela estava arrumando as malas, ele achou estranho, já que os dois tinham o show
do “The Black Crowes” para irem hoje à noite. Só que ele não contava que estava
sendo traído há meses, que o amante estava com ela, e que os dois iam morar em
outra cidade juntos.
Capítulo 06.
— Como assim?
— Frank, é isso mesmo que você ouviu, estou
indo embora, o John está no banheiro e, quando ele sair, se te ver aqui, ele te
quebra na porrada, ele é lutador de boxe profissional.
— E desde quando estão juntos?
— Há alguns meses, eu ia te contar, mas
você só andava preocupado com aquela merda de loja falida e esse show. Eu nem
gosto de rock…
Frank arrasado vai embora, ele nem se
encontrou com o tal do lutador. Lembrou que estava armado e pensou em matar o
amante. Mas se lembrou que ainda tinha o show do “The Black Crowes” para ir, e
também não havia nascido para ser um assassino. Os ingressos, ele se lembra que
havia os deixados dentro do carro.
Capítulo 07.
Ao voltar à oficina, ela estava fechada, só
um mendigo na porta bebendo e falando sozinho. Frank se senta ao lado do velho.
O mendigo começa a falar sobre Deus e Lúcifer. “Sabe, Lúcifer, o anjo caído,
certa vez disse para Jesus: Isso aconteceu faz tanto tempo e Deus ainda não me
perdoou… Isso está na Bíblia, pode ler, lá está para todo mundo ver, não sou eu
que estou dizendo, são as palavras da estrela do amanhã.”
— Acho que isso não está na Bíblia, não.
Você tirou essa passagem do "Sandman"?
O mendigo diz: — "Sandman"? Quadrinhos? Eu
fui quadrinista, mas eles pagavam muito pouco. Olha onde estou agora!
Capítulo 08.
Frank, desesperado por seus ingressos, pega
o revólver e começa a atirar na porta da oficina, ela se abre após aquela chuva
de balas de chumbo. Ele adentra ao local, lá não tinha ninguém e nem mesmo o
seu carro. “O que esses canalhas fizeram com os meus ingressos?” A chuva volta,
o mendigo assustado, começa sua oração: “Oh, Lúcifer, estrela do amanhã, rogai
por nós, pois somos filhos perdidos como você. Pecadores por amar demais,
incompreendidos talvez, mas nunca maus. Oh, Lúcifer, estrela do amanhã, esteja
conosco nesta alvorada, hoje, amanhã e para todo o sempre.”. O que mais podia
dar errado, Frank estava com uma maré de azar, talvez devesse ir mais à igreja
ou se confessar, ele pensa consigo mesmo.
Capítulo 09.
Para se proteger da chuva, ele entra em uma
loja de conveniência, na rádio tocava “She Talks To Angels” e anunciava que o
grande show da noite estava com os ingressos esgotados. Frank não tinha
dinheiro nem para tomar uma “Coca-Cola”, imagine para comprar novos ingressos
nas mãos de um cambista, que cobraria um rim ou um fígado em troca dos pequenos
pedaços de papel. Na rádio, a música rolava: “Say she talks to Angels, says
they all know her name, oh yeah, she talks to Angels, says they call her out by
her name.” A voz do cantor Chris Robinson entrava em sua mente como um
“mantra”; ele ouvia a música e ficava hipnotizado com o que via logo mais à sua
frente. Lá estava a menina loira como um anjo, e seu nome era Maria, ela
atendia no caixa da loja.
Capítulo 10.
Homens armados entram na loja, eles estavam
com meias-calças femininas na cabeça, aquele disfarce não dava para esconder a
identidade de ninguém ali. Mas quem se importa, eles estavam assaltando apenas
uma pequena loja de conveniência e não um banco. Quando os homens dão voz de
assalto, Frank sai imediatamente de seu transe.
— Ei, cara, você aí do fundo, nem pense em
dar uma de “Charles Bronson” não. Matamos você e a boneca aqui.
Frank até pensa em pegar a arma, mas no exato momento o japonês dono da loja sai do banheiro com uma espingarda calibre 12 e atira nos bandidos, matando-os na hora. Frank só conseguia pensar: “Que merda que esse chinês está fazendo, e ainda por cima com as calças abaixadas, ele nem se limpou antes de sair do banheiro”. “E quem vai cagar com um calibre 12? Essa cidade anda muito perigosa.”
Capítulo 11.
A chuva lá fora continuava. Ele puxa
assunto com a moça e descobre que ela também ia para o show assim que saísse do
trabalho, tinha dois ingressos, um sobrando porque sua prima não chegara à
cidade a tempo. Após ouvir a história de Frank, ela pergunta se ele não quer ir
com ela, só que os ingressos estavam em casa e ela não tinha carro.
— Só se você pagar o táxi, e carro eu acho
que nem tenho mais…
— Tudo bem, hoje foi um dia ruim para você,
e para mim, pode deixar que eu pago o taxi.
Capítulo 12.
Ao adentrar em casa, Maria se depara com
uma cena triste. Seu gato de estimação “Morpheus” havia comido os seus
ingressos. Eles estavam despedaçados no chão, e ainda tinha um pedaço do papel
na boca do bichano.
— O que eu fiz pra merecer isso, esse era
pra ser o show da minha vida!
— Calma, Frank, nós estamos vivos, não
estamos. Terão outros shows do "Black Crowes" para irmos.
— O seu gato se chama, como mesmo,
“Morpheus”, devido ao "Senhor dos Sonhos"?
— Isso, você também lê "Sandman"?
A partir dali eles descobriram terem muito
em comum, meses depois até começam a namorar. Ela preparou o jantar que
consistia em uma sopa de letrinhas, tinha vinho barato na geladeira, eles se
sentaram no sofá, ligaram a TV e a MTV transmitia um show do “The Black
Crowes”.
Fim.
Texto por Gabriel Henrique.


Comentários
Postar um comentário